Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Compartilhe o bem!
  • 74
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    74
    Shares

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Há uma infinidade de funções do Acompanhamento Terapêutico. E, por incrível que possa parecer, há atividades para além do universo clínico!

Ou seja, há pessoas que trabalham como acompanhantes terapêuticos, mas que não buscavam uma função terapêutica em um primeiro momento (mesmo que isso tenha ocorrido com o passar dos contatos). Explicarei mais sobre essa ampliação da função nas próximas linhas.

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Creio que podemos começar nossas reflexões pelo resgate dos primórdios das funções do Acompanhante Terapêutico segundo a visão das psicólogas argentinas Suzana de Mauer e Silvia Resnizky.

As duas foram minhas caras colegas no livro “E-Book AT: conexões clínicas no Acompanhamento Terapêutico”, lançado em 2012.

Também estamos juntos no livro (com vídeos, mp3, jogos virtuais de AT) Acompanhamento Terapêutico: terapia sem fronteiras primeira edição em 2017.

E… no livro delas de 1987 (p. 40 a 42) elas dizem o que segue:

1) Conter o paciente; 2) Oferecer-se como modelo de identificação; 3) Emprestar o “Ego”; 4) Perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente; 5) Informar sobre o mundo objetivo do paciente; 6) Representar o terapeuta; 7) Atuar como agente ressocializador e 8) Servir como catalisador das relações familiares. (MAUER; RESNIZKY, 1987: 40-42).

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Com essas funções pré-históricas podemos perceber que essa prática era (e ainda é) tomada como um recurso de intervenção no sujeito acompanhado que é tido como “fora da ordem”, o louco, o doente, o paciente.

E isso é facilmente justificado, pois o Acompanhamento Terapêutico nasceu para lidar com pacientes que viviam momentos de forte crise, de regra, surtos psicóticos e/ou grave dependência química!

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Hoje a realidade da prática AT é bem distinta. Podemos ir bem além dessas funções (psicoterapêuticas) do Acompanhamento Terapêutico e até colocá-las em xeque.

No decorrer do seu processo esse “Fazer Andarilho” era visto como uma clínica das psicoses, mas após anos de experiências o seu raio de ação foi gradualmente ampliando-se.

Atualmente, a “Terapia Sem Fronteiras”, o Acompanhamento Terapêutico é usado rotineiramente para tratamento de casos de doenças neurodegenerativas, acidentados, depressivos, dependentes, fóbicos, autistas, esquizofrênicos, bipolares, borderlines e por ai vai toda a lista nosográfica.

Com isso, podemos observar que o Acompanhamento Terapêutico não pode ser colado a ideia de uma única e exclusiva clínica de tratamento das psicoses, é muito mais do que isso.

E mais, diria que o Acompanhamento Terapêutico, a “Clínica de Rua”, não é exclusivamente uma prática psicoterapêutica.

Ele não é apenas isso, pois sua atuação não necessariamente vai buscar apenas uma intervenção psicoterapêutica num dado paciente.

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Agora quero chamar a sua atenção para o fato de que AT pode ser usado inclusive para a produção de filmes!

Algo inusitado? Inacreditável?

Então, podemos dar referência bibliográfica disso, mencionando a produção da psicóloga brasileira Déborah Sereno.

Na experiência AT relatada por essa psicoterapeuta de São Paulo, os acompanhantes terapêuticos tiveram pelo menos esses dois pedidos de trabalho: 1) acompanhar a psicanalista no movimento de contato com a loucura da/na rua e 2) localizar as pessoas que participariam dessa produção cinematográfica na rua.

Como escreve Sereno:

… acompanhantes terapêuticos improvisando como videomakers e psicanalista de carreira tornando-se diretora de cinema. (SERENO, 1997: 51).

Desse movimento nasceu a produção do curta-metragem “Dizem que sou louco”. Ele é um pequeno grande filme que surgiu a partir de uma pesquisa de mapeamento dos “loucos de rua” da cidade de São Paulo no Brasil.

É importante citar esse exemplo para ampliarmos nossa visão acerca do AT, inclusive para além do campo psicoterapêutico, aquele no qual há um clínico (o terapeuta, o “at”) que faz intervenção no paciente (o doente, o “acompanhado”).

Assim, é fundamental ficar evidente que o Acompanhamento Terapêutico está em expansão, buscando novas formas de ação, seja na clínica, no cinema ou em outras “praias”.

Funções Clínicas do Acompanhamento Terapêutico: O Que Pode Fazer um Acompanhante Terapêutico?

Em resumo, essa modalidade de intervenção usa o espaço de circulação do próprio paciente (rua, casa, escola, shopping, praças, parques, praia, etc.) para realizar: promoção da autonomia, ampliação do espaço de circulação, da capacidade criativa (e artística), da ressocialização, do processo de reflexão sobre si e os outros, da capacidade de higiene de si e do lar, da retomada do processo educacional, da atividade profissional, do lazer, do desenvolvimento pessoal, etc.

Livro de Acompanhamento Terapêutico (AT)

  • MAUER, Susana Kuras de; RESNIZKY, Silvia (1987). Acompanhantes Terapêuticos e Pacientes Psicóticos: Manual Introdutório a Uma Estratégia Clínica. Tradução: Waldemar Paulo Rosa. São Paulo: Papirus. 164p.
  • SERENO, Deborah (1997). Acompanhamento Terapêutico e Cinema. In: A CASA, Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-Dia (org.). Crise e Cidade: Acompanhamento Terapêutico. São Paulo: EDUC. p. 49-59.
  • SILVA, Alex Sandro Tavares da (org.). Acompanhamento Terapêutico: terapia sem fronteiras. Porto Alegre: Editora Portal Dr, 2017. 305p. 21 X 29,7 cm. Prefixo Editorial: 92956. Número ISBN: 978-85-92956-03-5.

Autor: Alex Tavares – Psicólogo (CRP 07/11807), psicoterapeuta, mestre em Psicologia (UFRGS), professor e supervisor em Acompanhamento Terapêutico no Portal Dr.

  • 74
    Shares

Você quer comentar?